Poluição luminosa: Quando a luz comeu a noite

15-01-2021

As noites cheias de estrelas têm servido durante gerações como fonte de inspiração. Desde canções e pinturas a grandes descobertas científicas e tecnológicas. Infelizmente, a nossa geração pode ser a última a ter acesso a esta maravilha natural que é o céu estrelado.

A causa desta perda é o excesso de iluminação artificial conhecido como poluição luminosa. Embora a iluminação seja necessária à noite por razões de segurança, há um ponto em que, uma vez ultrapassada, o excesso de luz se torna problemático.

Em Junho de 2016 o estudo "A New World Atlas of Sky Brightness by Artificial Light" foi publicado por um grupo internacional e interdisciplinar liderado pelo astrónomo italiano Fabio Falchi. O estudo indica que uma em cada três pessoas no mundo já não pode ver a Via Láctea devido à poluição luminosa, embora na América do Norte esse número atinja quatro em cada cinco.

Inicialmente, este tipo de poluição afectava apenas os astrónomos e a sua investigação, mas hoje afecta o consumo de energia, o equilíbrio ecológico e a saúde humana. Mas como chegámos a este ponto, e quais são os seus efeitos?

Recentemente, a revolução tecnológica do LED (Light Emitting Diode) tornou-se suficientemente acessível para as cidades migrarem a sua iluminação pública do vapor de sódio tradicional para as novas luzes LED. Para além de ser mais eficiente em termos energéticos, a luz branca dos LEDs dá uma resposta de cor mais fiel, o que se traduz numa maior segurança pública.

No entanto, mesmo à luz branca existem diferenças importantes. Os nossos olhos vêem a luz do dia como um branco neutro. Se a luz branca tiver uma tonalidade azul, chama-se "branco frio" ou luz fria, e se tiver uma tonalidade vermelha é uma luz "branco quente" ou luz quente.

A vantagem de um LED de luz fria é que fornece mais iluminação por unidade de energia, o que pode reduzir consideravelmente o consumo quando se considera que uma cidade pode ter dezenas de milhares de luzes em funcionamento.

Pelo contrário, é a forma como os seres vivos respondem à luz fria. Ao longo de milhões de anos, a vida no nosso planeta tem evoluído para responder aos ciclos naturais do dia e da noite. A luz com uma componente azul quebra este ciclo ao afectar as rotas migratórias e os ciclos reprodutivos em diferentes espécies animais. Os seres humanos são também afectados, pois a luz azul perturba o padrão de sono e descanso ao interromper a produção da hormona melatonina.

Por conseguinte, a Associação Médica Americana (AMA) também publicou um relatório em Junho de 2016 alertando que este tipo de iluminação aumenta o risco de cancro, diabetes e doenças cardiovasculares. Além disso, o olho humano tem maior sensibilidade na zona verde, pelo que esta luz azul extra não é sequer utilizada eficientemente pelos nossos olhos, o que nega o ponto de vista que era a favor desta iluminação.

A relação entre o aumento da luz com uma componente azul e a poluição luminosa é preocupante, uma vez que a luz azul pode percorrer centenas de quilómetros devido à dispersão atmosférica que ilumina o céu outrora escuro em áreas remotas. Uma nova descoberta do estudo de Falchi é que esta ligação foi anteriormente subestimada porque os satélites utilizados para medir o brilho das cidades não tinham a sensibilidade adequada nesta faixa de cor. Os novos resultados mostram que as luminárias com esta tonalidade azul podem aumentar a poluição luminosa até duas vezes e meia em comparação com as cidades que utilizam luz quente.

O estudo de Falchi torna-se então um aviso sobre as consequências desta tendência na iluminação que já não pode ser ignorada. Especialmente se cidades como Davis na Califórnia e a própria Nova Iorque, tiveram de mudar as suas renovações de iluminação pública de luz fria para luz quente a um grande custo económico devido a queixas dos próprios residentes sobre o desconforto desta iluminação. Isto porque a luz azul aumenta a percepção do encandeamento, sendo as pessoas mais sensíveis os deficientes visuais e os idosos.

Para prevenir a poluição luminosa, a medida mais directa é através de legislação que indique que tipo de luzes podem ser utilizadas em áreas próximas de observatórios astronómicos, sem negligenciar o aspecto da segurança pública. Exemplos destas legislações podem ser encontrados no Hawaii, Chile e Espanha, que têm grandes observatórios internacionais.

No México, o estado da Baixa Califórnia é o único no país que tem actualmente este tipo de regulamentação, uma vez que o Observatório Astronómico Nacional (OAN), operado pelo Instituto de Astronomia da UNAM, está localizado na Serra de San Pedro Mártir. San Pedro Mártir é considerado entre os quatro melhores locais do mundo para observação astronómica, mas ao contrário dos outros locais, o OAN está apenas a entrar na era da cooperação internacional e do investimento para a construção de grandes telescópios.

Uma condição absolutamente necessária para que isto aconteça é poder proteger eficazmente o seu céu escuro da poluição luminosa, utilizando apenas luzes com luz quente e nenhuma emissão acima do horizonte. Por esta razão, estão em curso trabalhos para actualizar os regulamentos na Baixa Califórnia e também para os trazer para o nível federal com um projecto de lei já apresentado na Câmara dos Representantes.

Tendo em conta a informação acima referida, a poluição luminosa já se tornou um problema global a tal ponto que a UNESCO está a tomar medidas, sendo a principal delas a inclusão de recomendações sobre como preveni-la na sua próxima Agenda Habitat 2030. Este guia servirá para tornar as cidades auto-sustentáveis e amigas do ambiente, o que, por sua vez, dará acesso a certos recursos e apoio.

Talvez a maior dificuldade em enfrentar este problema seja que com cada vez mais pessoas que nunca apreciaram a maravilha de um céu estrelado, simplesmente não podem perder o que nunca tiveram. É hoje que temos a oportunidade de resgatar para as gerações futuras o espectáculo que durante milhares de anos apreciámos como espécie, que impulsionou o desenvolvimento cultural, científico e tecnológico, e tem sido um companheiro fiel da história da nossa civilização. Ao preservarmos os céus estrelados, preservaremos também uma parte fundamental do que nos tornou humanos.

Por Fernando Ávila Castro. Escritório da Lei do Céu. Observatório Astronómico Nacional. Instituto de Astronomia UNAM, sede da Ensenada International Dark Sky Association. Fonte: Noite das Estrelas