Por que dizer NÃO ao Glifosato: O que a agricultura industrial fecha?

29-10-2020

Quando as pessoas são envenenadas pelo que consomem como alimento, pelo princípio da responsabilidade suas autoridades não podem permanecer impassassíveis, muito menos afundar-se na indolência e permitir que a fome prospere e as práticas de morte sejam encorajadas, sob o pretexto de "produzir alimentos". Esta reflexão é oportuna em tempos de pandemia e em meio a uma discussão pública sobre o uso do agroquímico chamado glifosato, um agente industrial de morte cada vez mais próximo da vida de todo ser humano.

O glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo na agricultura, silvicultura, jardinagem e até mesmo em atividades domésticas. Esta invenção química foi comercializada pela primeira vez na década de 1970 pela empresa Monsanto, sob o nome Round'Up.

Desde então, e até 2014, mais de 8,6 bilhões de quilos deste herbicida, que penetra no solo, filtra na água e seus resíduos permanecem nas plantações, foram pulverizados no planeta. Assim comemos e bebemos o glifosato, de modo que ele chegou ao organismo humano e causou câncer, dor e morte.

A empresa alemã Bayer assinou um acordo em junho deste ano por 8,8 a 9,6 bilhões de dólares para resolver mais de 125.000 reclamações nos Estados Unidos contra Round'Up, o pesticida à base de glifosato comercializado por sua subsidiária Monsanto, adquirido em 2018. Os reclamantes americanos acusam este pesticida de ser cancerígeno, de acordo com o Circ, um ramo da Organização Mundial da Saúde (OMS), citado por dw.com

Durante quase meio século, uma campanha persuasiva e bem sucedida elogiou o uso do glifosato e a ausência de estudos científicos sobre os efeitos na saúde e no meio ambiente favoreceu que o uso da agrotóxica se espalhasse pelo mundo impunemente.

Esse panorama mudou depois que organizações civis de defesa do meio ambiente, saúde e direitos humanos promoveram inúmeras investigações críticas para documentar os efeitos nocivos do pesticida. Com base nesta evidência, o glifosato foi proibido ou restrito na Áustria, Alemanha, França, Itália, Luxemburgo, Tailândia, Bermudas, Sri Lanka e partes da Espanha, Argentina e Nova Zelândia.

A agroindústria utiliza o glifosato principalmente em suas monoculturas para exterminar o que chama de ervas daninhas, ou seja, gramíneas que fazem parte da dieta tradicional dos povos nativos sem serem inseridas no circuito comercial massivo, como as diversas quelites, ou acahuales úteis para forragens.

O que a agricultura industrial não revela é que os cultivos transgênicos tolerantes ao glifosato geram encefalopatias, autismo, parkinsonismo, malformações e vários tipos de câncer, além de afetar os sistemas endócrino, reprodutivo, imunológico, digestivo, hepático, renal, nervoso e cardiovascular das pessoas.

Também afeta diferentes espécies de crustáceos, moluscos, oligochaetes, algas, fungos, fitoplâncton e zooplâncton, anfíbios, tartarugas, aracnídeos, aves, mamíferos e, o mais preocupante, insetos benéficos e polinizadores como abelhas e borboletas, assim como beija-flores.

Após uma extensa revisão da literatura científica, a OMS decidiu classificar o glifosato como "provavelmente carcinogênico para os seres humanos". Mais recentemente, o Instituto Ramazzini na Itália (www.glyphosatestudy.org) revelou ainda que o glifosato enfraquece o sistema imunológico humano de três maneiras: câncer de NHL, destruição de uma enzima essencial e modificação da flora intestinal, deixando as pessoas desprotegidas contra infecções como o coronavírus Covid-19.

É bem conhecido que no México, o país de origem e biodiversidade do milho, cada pessoa consome em média meio quilo deste cereal diariamente, um alimento básico da dieta nacional. O fato lamentável é que 10 milhões de toneladas de milho importadas anualmente dos Estados Unidos devem ser utilizadas apenas para ração animal ou insumos industriais altamente processados. Entretanto, 90,4% das tortilhas consumidas no México contêm seqüências de milho geneticamente modificado, assim como 82% das torradas, farinhas, cereais e lanches feitos a partir deste grão.

Os dados preocupantes são as descobertas da equipe científica da Universidade Nacional Autônoma do México e da Universidade Autônoma Metropolitana, que encontrou a presença alarmante de genes transgênicos de milho em 387 amostras de produtos de milho coletadas em lojas de tortilhas e supermercados, principalmente na Área Metropolitana do Vale do México. E embora também tenham encontrado transgêneros nas tortilhas mais artesanais, nelas não encontraram glifosato.

Isto porque as plantas de milho foram transformadas em laboratórios americanos para resistir a pragas e tolerar o herbicida glifosato, segundo a revista Agroecology and Sustainable Food Systems,

Mais de 85% do milho GM produzido nos Estados Unidos é tolerante ao glifosato, um pesticida que é pulverizado sobre o milho GM que o tolera, penetra nas plantas e penetra nos grãos, e assim entra em tortilhas e outros alimentos feitos de milho.

Os dados são chocantes, mas ainda mais porque o milho transgênico não é permitido no México em campos abertos, já que está em andamento uma ação coletiva que o impede desde 2013, quando foi aplicada uma medida preventiva que proibia seu plantio enquanto o processo legal estava em andamento.

É absurdo importar grãos GM porque o México produz milho suficiente para o consumo humano: híbrido nativo e não GM. Em 2016 produziu 25,7 milhões de toneladas de milho, das quais 12,3 milhões foram vendidas para consumo humano, 4,2 milhões para autoconsumo, 4,4 milhões para o setor pecuário e 1,5 milhões para exportação.

Em novembro de 2019, sob o princípio de precaução para a prevenção de riscos em matéria ambiental, a Secretaria do Meio Ambiente negou a importação de 1.000 toneladas de glifosato. E também em 2019, o Governo do México criou o Grupo Interministerial de Saúde, Alimentação, Meio Ambiente e Competitividade a fim de ter uma visão nacional dos principais problemas de saúde e ambientais, tais como o causado pelo glifosato.

Dada a evidência científica da toxicidade do glifosato, que demonstra os impactos na saúde humana e no meio ambiente, há um firme movimento no sentido de reduzir gradualmente o uso do glifosato, até ser completamente proibido em 2024, e promover um sistema agroalimentar mais seguro, mais saudável e mais amigável ao meio ambiente. O caminho crítico para a redução gradual do uso de herbicidas está sendo refinado com métodos alternativos.